Sarados e Compulsivos

Sarados e Compulsivos

Por Pamela Cristina Leme

Nas academias existe um universo paralelo de pessoas cujo objetivo de vida é ficar forte e ter um corpo perfeito a qualquer custo. Elas não bebem, não fumam, não tomam refrigerantes, alimentam-se a cada três horas (baseadas numa dieta rigorosa) e não ficam um só dia sem “puxar ferro”. Ainda com a perfeição traçada no corpo, nunca estão satisfeitas. Esses indivíduos sofrem de vigorexia, patologia emocional que se caracteriza pela dependência em exercícios físicos e atinge particularmente homens – embora as mulheres não fiquem de fora – com idade entre 18 e 25 anos.

O transtorno é novo, pouco conhecido, mas já se sabe que tem como princípio patológico a distorção da percepção do próprio corpo. O psiquiatra do Ambolim (Ambulatório de Bulimia e Distúrbios Alimentares) do Hospital das Clínicas da USP, Fábio Salzano, conta que ainda não é possível chamar a vigorexia de doença, mas ela é considerada uma espécie de irmã da bulimia ou anorexia. “Os vigoréxicos não se conformam com a imagem corporal e querem mudá-la de qualquer maneira”, explica. “Mas, ao contrário da anorexia, em que os pacientes se vêem sempre gordos, elas acham que têm uma estrutura física pequena demais, são sempre muito magras e frágeis”, completa.

7155d9a10f7a6cc83685ed21256facc5A fisiologista Cláudia Zamberlam, coordenadora de avaliação física da Triathon Academia, de São Paulo, já presenciou diversos casos de gente para quem a malhação é tão importante quanto dormir ou se alimentar. Ela conta que a turma dos “marombeiros” descontrolados não quer saber de aeróbica. “Eles querem os exercícios que aumentem a massa muscular. O que os interessa na academia, além de levantar mais peso do que o corpo suporta, é abusar do spinning (aula de bicicleta indoor), power jump (saltos numa minicama elástica), body combat (aula que mistura várias técnicas de artes marciais), escada e esteira”, aponta. De acordo com a profissional, os indivíduos malham de domingo a domingo, no mínimo cinco horas por dia. “Algumas pessoas esquematizam toda rotina pessoal e profissional de modo que possam ir à academia até três vezes num mesmo dia, inclusive de madrugada”, diz Cláudia.

Tamanho esforço físico costuma levar os vigoréxicos a desenvolver complicações sérias de saúde, entre elas o aumento da agressividade, estados depressivos e psicóticos, bem como lesões musculares e rupturas de ligamentos. Salzano ressalta que é bastante comum que os “viciados em academia”, como se autodenominam, invistam ainda no uso indiscriminado de suplementos alimentares e anabolizantes – que podem trazer conseqüências desastrosas como doenças do fígado, tumores, retenção de líquidos, complicações cardíacas, além de fazer crescer pêlos no corpo e engrossar a voz (o que contribui para tirar ainda mais a feminilidade das mulheres que têm o problema).

A obsessão em atividades físicas também vem acompanhada de uma grande preocupação: dietas. A fisiologista fala que muitos costumam recorrer ao auxílio de nutricionistas, mas outros criam um cardápio rígido por conta própria. A gordura e o açúcar são os maiores vilões dos vigoréxicos – muitos sequer comem frutas -, mas eles não se sentem nem um pouco entediados por ingerir sempre os mesmos alimentos. A pontualidade também chama a atenção: fazem refeições a cada três horas. Para completar, muitos chegam a gastar até 500 reais por mês em cápsulas de vitaminas e aminoácidos.

Mal moderno

Um dos fatores que leva à compulsão por exercícios é comportamental. Segundo o psiquiatra, quem desenvolve esse distúrbio costuma vir de famílias que valorizam demais a preocupação com o corpo. “Algumas pessoas crescem num ambiente em que a imagem é supervalorizada. Aprendem desde cedo a manter uma dieta restritiva e a nunca descuidar da aparência física”, sugere. O meio onde o indivíduo está inserido também é um fator importante. Salzano sinaliza que a mídia e o ideal de beleza imposto por ela reforçam esse tipo de comportamento.

Outro fator ligado ao desenvolvimento da vigorexia, também chamada de “complexo de Adônis” (nome cunhado pelo psiquiatra americano Harrison G. Pope, da Faculdade de Medicina de Harvard) está associado a pessoas com pouco vínculo social, tímidas ou com baixa auto-estima. “Elas esperam vencer a timidez e a baixa estima com corpos musculosos, esculpidos e, logo, invejáveis, capazes de conquistar a atenção de todos”, sugere. Cláudia garante que, nas academias, esses indivíduos fazem questão de exibir os bíceps volumosos, as barrigas de “tanquinho” e as pernas torneadas. “Essas pessoas gostam de fazer exercícios com shorts bem curtos e apertados, tops bem cavados ou camisetas justas”.

O tratamento do “complexo de Adônis” costuma unir medicamentos à terapia. Como não existem remédios que tratem da vigorexia em si, muitos médicos indicam antidepressivos e ansiolíticos, combinados ao auxílio de um psicólogo e de um psiquiatra. O corpo pode voltar ao normal com o apoio de profissionais do esporte que controlem a prática de exercícios físicos e indiquem atividades ideais para abandonar o aspecto escultural.

Fonte: http://www.guiadasemana.com.br